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sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

Canto para o velho fascista de saias




Ainda líquido - o cheiro do sangue
Fumaça, pólvora – reinado de mortos
Proibido
Fechado
Interditado
Papas  aidéticos renunciam
o mal já espraiado
certo  mesmo,
apenas  o fedor de queimado
e o sabor de morte
ou o cheiro do tédio
Batinas e bíblias rotas
Microfones e telas grandes
Vômito


cansam  sobretudo again de novo
esses bispos pedófilos
empanturram   todos estômagos
tantos  pastores feios
(e estelionatários)
Todavia
celebremos
singularíssimo  dia
Baco venceu hoje
(o papa , portador do vírus e da neoplasia
terminal  -  foi-se)

11.2.2013


Minas ainda


Um dia tentei sair de Minas
Viajei  longe de Uberaba
Às vezes sonhei fora de Minas
E acordei com meu acento
Anos escorridos, soterrada a  juventude
Apalpo Minas em mim todo
Sem retratos na parede
Urbe congelada  -   eterna zebuzeira
(cada vez mais  distante – e íntima)
Com ou sem sotaque
Sabendo  quiçá além, esperando, decerto, menos
Volto lá, todavia.
Ponto fixo.

Espelho  embaçado.
(Meu  pedaço  mais inteiro)
6.12.2010

Paulistana V


Noite de verão dispensa cobertor esfarrapado
Soa novamente a sirene do bandido fardado
Amontados ambulantes se atordoam com o mesmo som
As mãos se enchem de inúteis panfletos verdes

Suores de gentes vendendo chocolates derretidos
Torpor aderente naquele trem que se arrasta
Chuvas ou sóis invisíveis, o cinza veda a vista.

Automóveis aclimatados presos em bloqueadas avenidas
Camisas encharcadas escondidas sobre ternos escuros
Locutores de FM e seus helicópteros de novo fracassam
Labirintos distanciam territórios conflagrados

Fede a pinga, não há sabor possível
Água branca escorre do nariz quando deixam o banheiro
“on the rocks”, o Black label exala então todo sabor
A sirene anuncia a proximidade do fardado inimigo

Repetidas notas de músicas ciclicamente descartáveis
Instala-se aquele vírus conhecido no e-mail
Sucedem-se séries idiotas no canal mais visto
Ilhas e castelos pululam em multicoloridas revistas

Talvez, os acordes
Talvez os olhos fechados
Talvez o sonho inusitado


23.01.2001

Dissolução Insípida




Um obscuro desejo arrebata
Apatia volúvel te dissimula
Dissolveste a essência impura
Assim não voltaste ao paraíso
Vai ver te esperas nenhum sorriso
Amarelo, sem dentes, sem siso
Talvez escancaradamente velho
Velho demais pra te repor o juízo


04.1993

sábado, 16 de abril de 2016

Poema contra o golpe

Inútil
( ou  descartável supérflua)
Essa coisa de poesia

Entretanto insistimos
Empilhando versos
Teimando

Porque   ainda  mais em tempos assim
Versos gritam -  impertinentes
Altivos –   quase pretensiosos



Sei nada   sobre liberdade
Outrora, eu li, todos sufocados foram
Interdição  total –  qualquer  pensar pisoteado pela botas dos fardados

Novamente, de novo, repetindo? 
Roda viva girando reversamente
Covardes caretas apertando todos botões

Penteados e calvícies cafonas
Discursos tatibitates –  de vulgares meliantes
Homens feios que fingem rezar
(mas odeiam )

Que tanta burrice
Que tanta feiura
(pomposamente ocas como a prosa atrapalhada)

São não nada donos de tudo - todavia
Que estamos aqui, muito, ainda
Arquitetando novidades
Poemizando   futurices  - plenas de utopias
(projetando outra terra –  igualitária)

Cúpidos e covardes eles
Tresloucados - uns poucos  gostam ou seguem
( mas não sequestrarão o país)

Sem telas alucinógenas -  ou mesmo com globos e
 vesgos  congressistas (psicopatas ladrões)
Passaremos
Pisoteando as cabeças carecas deles

(pois estamos de pé – e somos todas milhões)

Julian

16.04.2016

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Minas ainda
Um dia tentei sair de Minas
Viajei  longe de Uberaba
Às vezes sonhei fora de Minas
E acordei com meu acento
Anos escorridos, soterrada a  juventude
Apalpo Minas em mim todo
Sem retratos na parede
Urbe congelada  -   eterna zebuzeira
(cada vez mais  distante – e íntima)

Com ou sem sotaque
Sabendo  quiçá além, esperando, decerto, menos
Volto lá, todavia.
Ponto fixo.

Espelho  embaçado.
(Meu  pedaço  mais inteiro)
6.12.2010

domingo, 10 de abril de 2016

Outros jogos


Pequenos, claro desenho 
recebemos
(peças pacatas com instruções de montar)

Devagarmente
descobrimos que o jogo não funciona
(tão bem quanto disseram)

Nos encaixes ou tentativas
de colar corpos, juntar vidas
revelam-se os  legos -  mais inúteis ainda

Resta apostar
Cegamente escolhendo aqui, ali
aspirando forte -  engrena desta vez?

E se não - quem sabe
o tempo, que sim,  já ajudou
( pois registra então  novos arranjos).

Úteis para a próxima decisão torta.


JULIAN
13.02.2012

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015


Paulistanas VII




De novo tudo estava no lugar
A televisão ligada
O som desligado (CD´s empilhados)
A cama novamente arrumada
Rua vazia, noite
Suas rimas ocas escondidas na gaveta
(e as ridículas expostas no poema)
Os clipes idiotas se repetem
E seus olhos, fixos, os atravessam
Mas não há crueldade no sofá frio
É noite, então
A sua vida em você
(pé descalço no piso gelado)


07.07.2002


Deslimite

poema pra T.

Daqui a pouco, de novo
horas de te ter
deletam-se padrões

A cada conjunção reposta
suspendem-se previsibilidades - 
tempo de deleites

Onde reiventam-se relógios
e amalgamam-se respiros-impulsos
(finalmente teu corpo subjugado)

Nos suspensos tempos inventados
desliza tua delgada silhueta morena
no chão, no banho, na  cama

Aspiro pelos pubianos teus
numa genuflexão imprescindível
(hora de sorver secreta buceta)

Corta o quarto teu gemido 
conquanto minhas narinas lá passeiam
em arranjos de pelos e intimidades

Espelho de mostrar formas doces
tua bunda demarcada
a firmeza da lingerie 

Transmutam-se, oníricos, quartos e banheiros
alargado espaço (tempo dilatado)
vale ainda acasalar - fêmea e macho

Sombra, colar, pulseira, seda, batom
tua toda lógica
de menina (moça, puta)

Capturado, olho dominando
sobra desejo para que alimentes

(assim: subjugo, disciplino, corrijo, ensino)

Então,  te penetro (indelicadamente).

E te resta, fêmea domada, o gozo.
                                           (plena)

2/09/2010

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Grávido 


(para W.)



Imersas no limbo do vir-a-ser
certas palavras  se recusam
forma estranha de gritar seu  sentido

me olho para você assim
prenhe de vontades interditas
colecionando proibições de palavras

tento cultivá-las,  como uma fêmea
que mansamente aguarda a hora,
tranqüila, de parir seu rebento

porque  ela ama e só o pode
a semente,  já encravada na barriga
mesmo sem saber o que virá da casca rompida

também meu poema é assim
vigilante, mantenho-o resguardado
escondido nas entranhas da mudez

espero -  caminhão de ansiedade
o dia dele se inscrever em  lisos papéis
para poder também te mostrar

e materializar meus olhares furtivos (ou nem tanto)
que fixam seus fundos-olhos castanhos castos
e se dissolvem ante a  menor ameaça de sorriso (largo)

Porque estou a cada dia um pouco assim
Prenhe de novas vontades ardentes
Guardião deste novo querer precioso

Sobretudo, e todavia mais que antes

Absolutamente vinculado a sua órbita.



outubro/2009

JCMN

Secas exéquias cegas

à João Cabral

palavra  sêca ( e séca)
poema endurecido
pontas cegas
lascadas linhas
de um sevilhano recifense
(cego)

morto agora um nordestino
exilado pernambucano
sem ver parou-se
secou
liricamente
[como fez com a poesia cansada]

rios e galos
Severinos e frades
cãos e touros

foi-se o cego cabral
vida e morte
concreta
esvai-se
(se severina, ressecada
ou
se sevilhana, caudalosa)



outubro de 1999

Meta meta ..........

Meta Meta Poema



E eu não quero fazer uma canção de amor

e não quero poesia cult
e chega de baudelaires
 e adolescentes rimbauds

E não me meta a fazer
metalinguagem chic
( mas livre-me de todo o kitsch !)

A procura da poesia não é luta vã
é luta sã
sejamos simplistas
nem amor nem amizade
prosa e poesia
também abaixo os campos concretos
(afinal, quem dirá o que é trocadilho
o que é poesia?)

E falar do que se faz
e não fazer o que se falou
e dizer como e por que se fez
teorizando a teoria teórica

Rimar de madrugada
ou branquear meu verso
ser poeta menor bandeira
e caminhar na mágica presença das estrelas

E ser singelo
quintaneando sem transbordar
sugar e sugar Drummond
ver a flor nascer do asfalto
contar casos vestidos
também despurificar o branco

Falar de amor então
e ser brega
e ser Vinícius
não sendo rosa cirrosa francesa

Ser vago-obscuro
precisamente vago
finamente, como um cão despenado
como um embaixador na Espanha

Chega de versos longos
economizemos empáfia
poupemos saudosos poetas de versos empolados

E que a flor do Lácio proteja
como um santo barroco
aquele que ousar ser original

E que a meta meta metáfora
não seja pós pós pós
e que o côncavo e o complexo
sejam simples e convexos
tudo agora nesse tempo titânico

Completa tradução
desta extasiada língua
linguagem sem meta
metalinguagem.



1995