Grávido
(para W.)
Imersas no limbo do vir-a-ser
certas palavras se recusam
forma estranha de gritar seu sentido
me olho para você assim
prenhe de vontades interditas
colecionando proibições de palavras
tento cultivá-las, como uma fêmea
que mansamente aguarda a hora,
tranqüila, de parir seu rebento
porque ela ama e só o pode
a semente, já encravada na barriga
mesmo sem saber o que virá da casca rompida
também meu poema é assim
vigilante, mantenho-o resguardado
escondido nas entranhas da mudez
espero - caminhão de ansiedade
o dia dele se inscrever em lisos papéis
para poder também te mostrar
e materializar meus olhares furtivos (ou nem tanto)
que fixam seus fundos-olhos castanhos castos
e se dissolvem ante a menor ameaça de sorriso (largo)
Porque estou a cada dia um pouco assim
Prenhe de novas vontades ardentes
Guardião deste novo querer precioso
Sobretudo, e todavia mais que antes
Absolutamente vinculado a sua órbita.
outubro/2009
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