quinta-feira, 29 de dezembro de 2016




Hoje faz 15 anos que Cassia Eller nos deixou.
Como homenagem, repasso um pequeno texto que escrevi, em janeiro de 2002 - uma homenagem a esse furacão que nos apaixonou e nos abandonou tão cedo.

p.s: Apesar de ter passado para a história que Cassia morreu de overdose e/ou combinação de drogas, é preciso lembrar que o exame toxicológico não confirmou essa hipótese, amplamente divulgada pela grande mídia. Tudo indica que ela  sofreu infarte e foi vítima de erro médico de clínica de segunda linha, onde recebeu os primeiros socorros, em Laranjeiras.
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Je ne regret rien ou Cássia na paz



"She maybe weary (...)
but when she gets weary
try a little tenderness
[that's all we've got do]"

(Woods, Campbell, Conelly)


            Como o segundo sol que chegaria, um dia, sem explicação. Não acreditei que Cássia tinha escolhido nova casa. De novo aquela perplexidade boba: Elis, Janis, Kurt, Renato Russo, Chico Science, Cazuza, Lennon, Morrison, Gonzaguinha, Billie Holiday: cedo demais. Certa vez – sem querer ? – Renato cantou que os bons morrem jovens.
            Cássia era uma garotinha tímida. Talvez tímida demais para conviver com a idéia de que quase meio milhão de pessoas compraram seu CD acústico. Era muita gente.
            Em pouco mais de dez anos, Cássia Eller havia se afirmado como a melhor cantora brasileira. Sem exagero. Intérprete de voz singular, sua personalidade lhe permitia vestir músicas dos mais diferentes autores e estilos como se fossem suas. Porque eram. Seu toque pessoal, pecualiaríssimo, impregnava cada canção que interpretava.
            Seu primeiro CD revelava uma nova voz, grave, que chamava a atenção. Lá estavam autores como Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé – figuras da vanguarda musical paulistana. Estava também uma canção ousada e divertida de Mário Manga: Rubens, onde Cássia canta um adolescente se descobrindo apaixonado e gay: "Rubens, será que dá? A gente é homem/ o povo vai estranhar/ Rubens, pára de rir, menino/, se tua família descobre eles vão querer nos engolir."
            E Cássia Eller só melhorou. Em 1993 lança o CD no qual grava pela primeira vez Malandragem, de Cazuza, seu hit definitivo,  de tons autobiográficos. Neste CD traz pelo menos uma interpretação antológica Try a little tenderness. Essa sua versão para a conhecida canção americana não deixa nada a dever para o melhor bluezeiro/soulzeiro/rockeiro  ianque.
            Ainda neste trabalho – que de fato a lançou – inicia sua parceria artística com Nando Reis (ECT). Canta pela segunda vez Renato Russo (1º de julho), atualiza Raul Seixas (Metrô linha 743) e ainda grava Ataulfo Alves, Djavan e até Paulo Ricardo. Rara combinação de ecletismo e bom gosto.
            Em 1997 vem à tona Veneno Antimonotonia, dedicado inteiramente à Cazuza – uma espécie de alma parceira. Visual à la K. D. Lang na capa, numa atitude provocante, sexualizada  - e lésbica. Aliás, diferentemente de outras "divas" brasileiras, Cássia nunca fez de conta que não era com ela. Sem nunca ter sido militante, sempre deixou explícita sua orientação sexual. Casada há anos com Eugênia, foi  mãe exemplar de Chicão. E, ao mesmo tempo, peitos à mostra, careca, visual punk, moicana, coçando um saco imaginário e real. Fera, bicho, anjo, mulher, mãe e filha. Mas só dela.
            Apesar de transitar pelo melhor da MPB – como no CD Com você meu mundo ficaria completo, de 1999: "vocês não sabem, mas Chico Buarque é meu verdadeiro pai" – Cássia marcava todas as suas perfomances com o melhor espírito do blues e do velho e bom  rock and roll.  Aliás, a pedido de Chicão, cantou e registrou em CD ao vivo Smells like teen spirit, do Nirvana. Quem mais, no Brasil de hoje, teria audácia e competência para fazê-lo?
            Mas sua partida repentina deixou  triste o final de 2001 e alvoroçou os urubus, moralistas e hipócritas de plantão. Do muito que se falou, escreveu, especulou, pouco, muito pouco foi sobre a perda. Quase tudo foi fofoca, crônica policial e veneno destilado. E, como sempre, uma certa   revista se   superou  no mau caratismo.
            Sim, morre o homem e fica a fama. Mas o nome de Cássia Eller não vai para a lama. Mistura perfeita de explosão pública e recato privado, seu emudecimento precoce deixa saudades e lições. Tentemos, todos, pois, um pouco de ternura.
            Paranóia delirante? Não, Cássia na paz. E piedade para essa gente careta e covarde. TOP TOP TOP  TUM...

Julian Vicente Rodrigues,

28,  é  licenciado em letras pela UFV



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