sábado, 16 de abril de 2016

Poema contra o golpe

Inútil
( ou  descartável supérflua)
Essa coisa de poesia

Entretanto insistimos
Empilhando versos
Teimando

Porque   ainda  mais em tempos assim
Versos gritam -  impertinentes
Altivos –   quase pretensiosos



Sei nada   sobre liberdade
Outrora, eu li, todos sufocados foram
Interdição  total –  qualquer  pensar pisoteado pela botas dos fardados

Novamente, de novo, repetindo? 
Roda viva girando reversamente
Covardes caretas apertando todos botões

Penteados e calvícies cafonas
Discursos tatibitates –  de vulgares meliantes
Homens feios que fingem rezar
(mas odeiam )

Que tanta burrice
Que tanta feiura
(pomposamente ocas como a prosa atrapalhada)

São não nada donos de tudo - todavia
Que estamos aqui, muito, ainda
Arquitetando novidades
Poemizando   futurices  - plenas de utopias
(projetando outra terra –  igualitária)

Cúpidos e covardes eles
Tresloucados - uns poucos  gostam ou seguem
( mas não sequestrarão o país)

Sem telas alucinógenas -  ou mesmo com globos e
 vesgos  congressistas (psicopatas ladrões)
Passaremos
Pisoteando as cabeças carecas deles

(pois estamos de pé – e somos todas milhões)

Julian

16.04.2016

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Minas ainda
Um dia tentei sair de Minas
Viajei  longe de Uberaba
Às vezes sonhei fora de Minas
E acordei com meu acento
Anos escorridos, soterrada a  juventude
Apalpo Minas em mim todo
Sem retratos na parede
Urbe congelada  -   eterna zebuzeira
(cada vez mais  distante – e íntima)

Com ou sem sotaque
Sabendo  quiçá além, esperando, decerto, menos
Volto lá, todavia.
Ponto fixo.

Espelho  embaçado.
(Meu  pedaço  mais inteiro)
6.12.2010

domingo, 10 de abril de 2016

Outros jogos


Pequenos, claro desenho 
recebemos
(peças pacatas com instruções de montar)

Devagarmente
descobrimos que o jogo não funciona
(tão bem quanto disseram)

Nos encaixes ou tentativas
de colar corpos, juntar vidas
revelam-se os  legos -  mais inúteis ainda

Resta apostar
Cegamente escolhendo aqui, ali
aspirando forte -  engrena desta vez?

E se não - quem sabe
o tempo, que sim,  já ajudou
( pois registra então  novos arranjos).

Úteis para a próxima decisão torta.


JULIAN
13.02.2012

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015


Paulistanas VII




De novo tudo estava no lugar
A televisão ligada
O som desligado (CD´s empilhados)
A cama novamente arrumada
Rua vazia, noite
Suas rimas ocas escondidas na gaveta
(e as ridículas expostas no poema)
Os clipes idiotas se repetem
E seus olhos, fixos, os atravessam
Mas não há crueldade no sofá frio
É noite, então
A sua vida em você
(pé descalço no piso gelado)


07.07.2002


Deslimite

poema pra T.

Daqui a pouco, de novo
horas de te ter
deletam-se padrões

A cada conjunção reposta
suspendem-se previsibilidades - 
tempo de deleites

Onde reiventam-se relógios
e amalgamam-se respiros-impulsos
(finalmente teu corpo subjugado)

Nos suspensos tempos inventados
desliza tua delgada silhueta morena
no chão, no banho, na  cama

Aspiro pelos pubianos teus
numa genuflexão imprescindível
(hora de sorver secreta buceta)

Corta o quarto teu gemido 
conquanto minhas narinas lá passeiam
em arranjos de pelos e intimidades

Espelho de mostrar formas doces
tua bunda demarcada
a firmeza da lingerie 

Transmutam-se, oníricos, quartos e banheiros
alargado espaço (tempo dilatado)
vale ainda acasalar - fêmea e macho

Sombra, colar, pulseira, seda, batom
tua toda lógica
de menina (moça, puta)

Capturado, olho dominando
sobra desejo para que alimentes

(assim: subjugo, disciplino, corrijo, ensino)

Então,  te penetro (indelicadamente).

E te resta, fêmea domada, o gozo.
                                           (plena)

2/09/2010

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Grávido 


(para W.)



Imersas no limbo do vir-a-ser
certas palavras  se recusam
forma estranha de gritar seu  sentido

me olho para você assim
prenhe de vontades interditas
colecionando proibições de palavras

tento cultivá-las,  como uma fêmea
que mansamente aguarda a hora,
tranqüila, de parir seu rebento

porque  ela ama e só o pode
a semente,  já encravada na barriga
mesmo sem saber o que virá da casca rompida

também meu poema é assim
vigilante, mantenho-o resguardado
escondido nas entranhas da mudez

espero -  caminhão de ansiedade
o dia dele se inscrever em  lisos papéis
para poder também te mostrar

e materializar meus olhares furtivos (ou nem tanto)
que fixam seus fundos-olhos castanhos castos
e se dissolvem ante a  menor ameaça de sorriso (largo)

Porque estou a cada dia um pouco assim
Prenhe de novas vontades ardentes
Guardião deste novo querer precioso

Sobretudo, e todavia mais que antes

Absolutamente vinculado a sua órbita.



outubro/2009

JCMN

Secas exéquias cegas

à João Cabral

palavra  sêca ( e séca)
poema endurecido
pontas cegas
lascadas linhas
de um sevilhano recifense
(cego)

morto agora um nordestino
exilado pernambucano
sem ver parou-se
secou
liricamente
[como fez com a poesia cansada]

rios e galos
Severinos e frades
cãos e touros

foi-se o cego cabral
vida e morte
concreta
esvai-se
(se severina, ressecada
ou
se sevilhana, caudalosa)



outubro de 1999