quinta-feira, 31 de dezembro de 2015


Paulistanas VII




De novo tudo estava no lugar
A televisão ligada
O som desligado (CD´s empilhados)
A cama novamente arrumada
Rua vazia, noite
Suas rimas ocas escondidas na gaveta
(e as ridículas expostas no poema)
Os clipes idiotas se repetem
E seus olhos, fixos, os atravessam
Mas não há crueldade no sofá frio
É noite, então
A sua vida em você
(pé descalço no piso gelado)


07.07.2002


Deslimite

poema pra T.

Daqui a pouco, de novo
horas de te ter
deletam-se padrões

A cada conjunção reposta
suspendem-se previsibilidades - 
tempo de deleites

Onde reiventam-se relógios
e amalgamam-se respiros-impulsos
(finalmente teu corpo subjugado)

Nos suspensos tempos inventados
desliza tua delgada silhueta morena
no chão, no banho, na  cama

Aspiro pelos pubianos teus
numa genuflexão imprescindível
(hora de sorver secreta buceta)

Corta o quarto teu gemido 
conquanto minhas narinas lá passeiam
em arranjos de pelos e intimidades

Espelho de mostrar formas doces
tua bunda demarcada
a firmeza da lingerie 

Transmutam-se, oníricos, quartos e banheiros
alargado espaço (tempo dilatado)
vale ainda acasalar - fêmea e macho

Sombra, colar, pulseira, seda, batom
tua toda lógica
de menina (moça, puta)

Capturado, olho dominando
sobra desejo para que alimentes

(assim: subjugo, disciplino, corrijo, ensino)

Então,  te penetro (indelicadamente).

E te resta, fêmea domada, o gozo.
                                           (plena)

2/09/2010

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Grávido 


(para W.)



Imersas no limbo do vir-a-ser
certas palavras  se recusam
forma estranha de gritar seu  sentido

me olho para você assim
prenhe de vontades interditas
colecionando proibições de palavras

tento cultivá-las,  como uma fêmea
que mansamente aguarda a hora,
tranqüila, de parir seu rebento

porque  ela ama e só o pode
a semente,  já encravada na barriga
mesmo sem saber o que virá da casca rompida

também meu poema é assim
vigilante, mantenho-o resguardado
escondido nas entranhas da mudez

espero -  caminhão de ansiedade
o dia dele se inscrever em  lisos papéis
para poder também te mostrar

e materializar meus olhares furtivos (ou nem tanto)
que fixam seus fundos-olhos castanhos castos
e se dissolvem ante a  menor ameaça de sorriso (largo)

Porque estou a cada dia um pouco assim
Prenhe de novas vontades ardentes
Guardião deste novo querer precioso

Sobretudo, e todavia mais que antes

Absolutamente vinculado a sua órbita.



outubro/2009

JCMN

Secas exéquias cegas

à João Cabral

palavra  sêca ( e séca)
poema endurecido
pontas cegas
lascadas linhas
de um sevilhano recifense
(cego)

morto agora um nordestino
exilado pernambucano
sem ver parou-se
secou
liricamente
[como fez com a poesia cansada]

rios e galos
Severinos e frades
cãos e touros

foi-se o cego cabral
vida e morte
concreta
esvai-se
(se severina, ressecada
ou
se sevilhana, caudalosa)



outubro de 1999

Meta meta ..........

Meta Meta Poema



E eu não quero fazer uma canção de amor

e não quero poesia cult
e chega de baudelaires
 e adolescentes rimbauds

E não me meta a fazer
metalinguagem chic
( mas livre-me de todo o kitsch !)

A procura da poesia não é luta vã
é luta sã
sejamos simplistas
nem amor nem amizade
prosa e poesia
também abaixo os campos concretos
(afinal, quem dirá o que é trocadilho
o que é poesia?)

E falar do que se faz
e não fazer o que se falou
e dizer como e por que se fez
teorizando a teoria teórica

Rimar de madrugada
ou branquear meu verso
ser poeta menor bandeira
e caminhar na mágica presença das estrelas

E ser singelo
quintaneando sem transbordar
sugar e sugar Drummond
ver a flor nascer do asfalto
contar casos vestidos
também despurificar o branco

Falar de amor então
e ser brega
e ser Vinícius
não sendo rosa cirrosa francesa

Ser vago-obscuro
precisamente vago
finamente, como um cão despenado
como um embaixador na Espanha

Chega de versos longos
economizemos empáfia
poupemos saudosos poetas de versos empolados

E que a flor do Lácio proteja
como um santo barroco
aquele que ousar ser original

E que a meta meta metáfora
não seja pós pós pós
e que o côncavo e o complexo
sejam simples e convexos
tudo agora nesse tempo titânico

Completa tradução
desta extasiada língua
linguagem sem meta
metalinguagem.



1995