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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Publicado no site do Azenha

2017 vai ser outro ano
Julian Rodrigues, especial para o Viomundo
É quase impossível fugir das retrospectivas e balanços anuais em fins de dezembro. 2016 já entrou para a história como o ano do golpe de novo tipo no Brasil.
Mas eu não quero falar da onda conservadora, nem do desmonte acelerado dos direitos sociais e trabalhistas que o governo golpista vem promovendo.
Muito menos dos índices recordes de desemprego ou da recessão.
Também não quero falar do papel da mídia, do Ministério Público e do Judiciário nesse processo de destruição das empresas nacionais, de entrega do pré-sal, de desmantelamento do Estado – que concomitantemente visa destruir o PT, Lula e a esquerda brasileira.
O que eu quero é pensar no amanhã. Partir da análise do cenário atual para projetar o que pode vir a ser.
Eles têm um plano, e daí?
Não vamos nos iludir. O golpe não foi feito para acabar em 2018.
As elites nacionais, articuladas com os interesses dos EUA têm um plano bem nítido, de longo prazo. Pretendem aplicar um programa radical de privatizações, retirada de direitos dos trabalhadores e destruição do embrião de Estado de bem-estar social, que vinha sendo construído a partir da Constituição de 1988.
Os objetivos são aumentar a taxa de lucro dos empresários, manter os extraordinários ganhos dos rentistas, alinhar novamente o Brasil aos interesses norte-americanos, entregar nossas riquezas às corporações estrangeiras, aplastar a esquerda, os movimentos sociais e o PT. Sobretudo sonham em interditar (e se possível encarcerar) Lula.
Há muita especulação sobre o golpe dentro do golpe, que seria retirar Temer em 2017 e eleger um novo presidente por via indireta – que não seja da turma do PMDB.
Desejam alguém mais representativo do núcleo duro do golpe (mídia, banqueiros, grande burguesia, Ministério Público/Judiciário). Ou seja, um tucano ou assemelhado.
Uns falam em FHC, outros em Meireles e ultimamente tem circulado a alternativa Nelson Jobim, que teria a vantagem de contar com muita experiência e conexões nos três poderes, além de um suposto trânsito à esquerda.
O que se especula é que Jobim daria uma “limpada” na imagem do governo golpista, afastando de vez a camarilha do PMDB do núcleo do executivo. Assim, poderia ganhar alguma legitimidade para continuar implementando as medidas neoliberais e construir a próxima etapa do golpe.
Sim, porque é muito arriscado para eles uma eleição em 2018, em meio à grave crise econômica, mesmo se tirarem Lula da cédula.
Eleições somente com mudanças na regras do jogo que afastem qualquer possibilidade das forças direitistas serem derrotadas. Pode ser parlamentarismo, pode ser qualquer outro novo arranjo institucional.
Há várias propostas sendo incubadas.
O conhecido deputado da Miro Teixeira (Rede-RJ), com notórios vínculos com a Globo, articulou duas diferentes emendas constitucionais.
Uma delas viabilizaria as eleições diretas em 2017 no caso da queda de Temer.
A outra propõe uma assembleia constituinte, com amplos poderes, a partir de fevereiro de 2017. Um perigo!
Já reacionários como Ronaldo Caiado (DEM-GO) andaram falando em eleições diretas. Enquanto isso, a Globo e o braço MP-Judiciário aceleram a fritura de Temer e da quadrilha peemedebista. O que, por outro lado, faz o traíra correr ainda mais para mostrar serviço à burguesia, acelerando as propostas das reformas trabalhista e da previdência.
Enquanto eles não se decidem, aumenta o tom da disputa entre o STF e o Congresso Nacional; entre as corporações do sistema de justiça e o velho centrão fisiológico e com o legislativo, cada vez mais desmoralizado.
E a crise econômica vai se agravando, sem perspectiva de melhora. O desemprego chega a 12%.
As classes médias paneleiras vão continuar apoiando o golpe nesse cenário?
E os que melhoraram de vida nos anos dos governos do PT?
E a massa trabalhadora que ainda não se moveu?
Todo mundo vai engolir essa reforma da previdência que acaba, na prática, com o direito à aposentadoria?
A destruição dos direitos trabalhistas vai passar sem reação significativa?
Lula 2017
Mas, não há nada como o passar do tempo, com a permissão do clichê.
Já há sinais de que se inicia – em amplos setores – um lento processo de reavaliação sobre o que aconteceu.
Dilma melhora sua imagem e começa a ser vista em outra perspectiva.
Vai ficando mais nítido que o impeachment foi mesmo um golpe e nada tinha a ver com o combate à corrupção. Cresce a saudade dos anos Lula, como as pesquisas vem mostrando.
Portanto, apesar de atravessarmos a maior ofensiva da direita contra o povo brasileiro desde a redemocratização, existe espaço concreto para reação, para resistência, para o combate.
Não está dado que o ciclo golpista-neoliberal vai durar 20 anos.
A reorganização do campo da esquerda se dará “a quente”, nas ruas, nas mobilizações contra a reforma trabalhista, no fortalecimento da Frente Brasil Popular, em aliança com a Frente Povo Sem Medo.
Mas, para essa reorganização funcionar é preciso uma alternativa prática. Uma palavra de ordem e um objetivo tático que unifique a maioria do campo democrático-popular.
A palavra de ordem é Diretas Já.
Para além de servir de bandeira de agitação política é uma orientação para mobilizações, mirando a pressão sobre o Congresso para a aprovação da PEC das diretas no Congresso, nesse cenário de crise do governo Temer.
Mas, do que adianta eleições em 2017 sem que exista a perspectiva concreta de derrotar os golpistas nas urnas com um programa de desenvolvimento econômico e reformas estruturais?
Daí que é preciso lançar a campanha Lula presidente, já.
A candidatura Lula é a única que pode colocar em movimento o campo democrático-popular apontando uma alternativa de projeto para tirar o Brasil da crise.
Além disso, ao começar a campanha Lula presidente podemos colocar na defensiva Moro e seus procuradores coxinhas-entreguistas.
Trata-se de dar visibilidade a uma plataforma política de esquerda, quebrando o monopólio discursivo dos golpistas. Não é sem razão que o Estadão já reagiu em editorial, babando contra a possibilidade de uma nova candidatura de Lula.
Lançar imediatamente uma campanha pela PEC das diretas e construir a candidatura Lula vai colocar o campo democrático-popular em movimento, nos permite retomar a ofensiva.
Diretas-Já e Lula-2017 dão norte, horizonte, perspectiva para todo o país. E combatem a dispersão, a melancolia, a confusão, a “bateção de cabeça” nos setores progressistas.
Dá uma perspectiva propositiva-palpável, viável, nítida para a luta social, que não pode ser apenas reativa.
Lula pode ser a reinvenção de si mesmo e de seu legado.
Se sua candidatura for construída com amplo debate permitirá a atualização do projeto democrático-popular. Sua candidatura também abre a possibilidade de uma renovação programática do PT, feita nas bases, nas ruas e palanques.
Balanço crítico dos 12 anos de governo e elaboração de uma nova estratégia junto com agitação e mobilização massiva, repactuando com o povão são tarefas do PT e do campo democrático-popular em 2017.
Só Lula tem condições de impulsionar esse processo de reorganização e renovação da esquerda e simultaneamente denunciar o golpe, propor eleições diretas e apresentar às massas uma alternativa para o país.
Então, cantemos com Chico: “amanhã vai ser outro dia”. E 2017 vai ser outro ano.
PS: Portantoo papel de Lula agora é muito maior do que presidir o PT. O partido precisa fazer um debate, uma  avaliação crítica do último período, renovando sua estratégia e  também montando uma nova direção. Tarefa não pode ser liderada por Lula. Além de ser nosso candidato a presidente da República, ainda tem que se dedicar a  defender-se  da  perseguição de  Moro.
29/12/2016
Julian Rodrigues é professor e jornalista, ativista LGBT e defensor dos direitos humanos é militante do PT-SP.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

MUDAR A ESTRATÉGIA E RESISTIR AO GOLPE - Tudo ao mesmo tempo agora

O golpe está em curso. 
A probabilidade de o Senado ou o STF reverterem o processo é baixíssima. E mesmo que tenhamos sucesso a ofensiva continuará.
Sem chororô: é preciso reconhecer que sofremos uma derrota substantiva. Um eventual governo Temer, o qual não reconheceremos, trará retrocessos imensos.
São dois pilares programáticos: de um lado, uma política econômica neoliberal, privatista, de arrocho, cortes de direitos trabalhistas e sociais. De outro, um ataque às liberdades individuais, à laicidade do Estado, aos direitos humanos, aos direitos das mulheres, jovens, negros, LGBT.
Os setores democráticos, de esquerda, progressistas não sairão das ruas. Esse grande bloco de artistas, intelectuais, jovens, movimentos sociais, partidos continuará mobilizado em luta contra as medidas regressivas que serão implementadas pelo ilegítimo governo Cunha/Temer/Bolsonaro/Globo.

Novo período

Vivemos um novo momento histórico. A burguesia brasileira e seus parceiros internacionais romperam, mais uma vez, com a institucionalidade democrática-liberal. Nossa restrita democracia foi descartada. Nada será como antes.
As elites brasileiras retomaram sua tradicional veia golpista e reacionária. Não aceitam nem um reformismo moderado, não querem saber de nenhum tipo de conciliação de classes. Por um curto período histórico, por razões conjunturais, conviveram com a esquerda no governo. Mas, no primeiro sinal de crise, radicalizaram: “PT não! Esquerda, nem pensar! Chega de Lula, de preto na universidade, de pobre querendo direitos! As coisas precisam voltar ao seu devido lugar”.
Ora, mas se a direita age como sempre agiu, é preciso reconhecer que a derrota que nos impuseram só foi possível porque o governo Dilma, Lula e a maioria do PT erraram feio, erraram rude.
Não perceberam que a estratégia de conciliação e concessões ao mercado estava esgotada.
Ganhamos a eleição pela esquerda, e, antes mesmo da posse, guinamos para uma política de ajuste fiscal, corte de direitos, arrocho. Isso foi imediatamente percebido pela grande massa que deu um voto de confiança em nosso projeto. Os índices de Dilma caíram imediatamente.
Mesmo assim, o governo não mudou. Insistiu em ceder aos inimigos e atacar sua base social. Alimentou os conspiradores, que estavam dentro do próprio governo. Lembram que Temer era articulador político de Dilma? Governo deixou correr solto o golpismo, cheio de ilusões “republicanas”. Embriagado com a esperança de que fazendo concessões ao grande capital poderia sobreviver.
Polícia Federal e Ministério Público construíram o golpe debaixo de nossos narizes, enquanto o Ministério da Justiça se orgulhava de ser “republicano” – uma bobagem liberal. A Globo e toda imprensa golpista envenenou o país diariamente, rindo na nossa cara, recebendo grandes verbas publicitárias estatais.
Isso para não mencionar as ilusões com PMDB, PSD, PR, PP esses fisiológicos desqualificados, que fingiram apoiar o governo enquanto se locupletavam.
Por exemplo: em fevereiro o golpismo já avançava despudoradamente. E a direção petista usou o horário eleitoral do partido para pedir “união”, sugerindo que as bandeiras azuis e vermelhas deveriam ser abaixadas. Pareciam viver em outro país.

Eu te disse, eu te disse

Seria fácil citar aqui dezenas de erros crassos cometidos nesses últimos anos, que abriram o flanco para a ofensiva reacionária. Mas, não é o caso. De nada adianta.
O ponto aqui não é apontar o dedo e adotar uma postura superior, como quem tripudia e diz: “eu avisei, eu te disse”. Fazer piada ou pisotear - com ar blasé - sobre a tragédia pode fazer bem para o ego e a consciência de alguns, mas não ajuda em nada na resistência e na reconfiguração do campo democrático-popular-socialista.
Estamos todas no mesmo barco. Moderados ou radicais, lulistas ou socialistas, revolucionários ou reformistas, petistas ou psolistas, comunistas ou social-liberais.
A reorganização e a mudança da estratégia da maioria da esquerda é um imperativo histórico.
Entretanto, a luta de classes não vai parar aguardando resoluções dos congressos dos nossos partidos e organizações. Não haverá nenhum intervalo para militância fazer balanço, lamber feridas, refletir sobre os últimos vinte anos.
Muitos têm dito: não é hora de balanços, é momento de unidade e confronto. É verdade. Não é hora de balanços estéreis e acusatórios, não é momento para sectários “ajustes de contas”.
Mas também não dá para fingir que nada aconteceu. Sem analisar os acertos e erros do último período, sem fazer autocrítica, sem reconhecer os limites da estratégia de reformismo moderado, de alianças com a centro-direita, de subestimação da mobilização social não será possível renovar o PT, não será possível reconectar a maioria da esquerda com a juventude, as mulheres, os trabalhadores, o povo oprimido.
Vamos ter que mudar lutando. Lutar nos transformando.
Vamos lutar nas ruas e, ao mesmo tempo, refletir, reinventar. Boa parte da esquerda se acomodou, perdeu o ímpeto, se burocratizou, esqueceu de que lado samba, adotou punhos de renda. Essa era acabou, gente!
A Frente Brasil Popular é um espaço central. Em poucos meses se tornou, de fato, o centro político dirigente da esquerda, dos progressistas, uma referência para artistas, intelectuais, jovens. Em parceria com a Frente Povo Sem Medo lidera o movimento democrático.
A mudança da estratégia, portanto, já está em curso - na prática.
Nesse novo período vamos precisar de mais organicidade, mais formação política, mais combatividade, mais espírito de luta, mais mobilização social, mais disputa ideológica.
E nenhuma ilusão com a institucionalidade burguesa, nenhuma ilusão com a possibilidade de acordos com o lado de lá. Nenhum “republicanismo”. Voltar a entender que o Estado é um instrumento de dominação burguesa. E que nossa presença nessa institucionalidade só faz sentido se for para questioná-la, por dentro.
Uma nova estratégia. Uma esquerda renovada, combativa, radical, libertária, feminista, anti-racista, ousada. Somente assim estaremos a altura do novo período histórico.